Elas se recolhem. Observam. Esperam.
O melindre nasce assim: silencioso, sensível demais ao olhar do outro, atento a tudo, menos à própria responsabilidade de falar. É quando a pessoa sofre, mas acredita que pedir ajuda é exposição excessiva. Então ela espera. Espera que percebam. Que sintam. Que adivinhem.
No fundo, existe um desejo legítimo de cuidado.
Mas ele vem embrulhado em orgulho.
A pessoa não diz que está mal. Não pede. Não se coloca. Mas se entristece quando ninguém se aproxima. Interpreta o silêncio como descaso, quando, na verdade, foi ela mesma quem se fechou.
E isso machuca.
Machuca porque cria uma expectativa impossível: a de que o outro deveria saber exatamente onde dói, que a espiritualidade deveria anunciar, que o grupo deveria perceber sinais invisíveis.
Só que a maturidade espiritual não funciona assim.
A espiritualidade inspira, ampara, intui, mas não invade.
O grupo acolhe, sustenta, caminha junto, mas não adivinha.
Quando o melindre governa, qualquer gesto parece pouco. Qualquer ausência vira ferida. E a dor cresce não por falta de amor, mas por falta de verdade.
Existe um momento decisivo no amadurecimento da alma: quando ela entende que pedir ajuda não é fraqueza, é consciência. Não é exposição desnecessária, é honestidade consigo mesma.
Falar exige coragem.
Silenciar por orgulho custa caro.
A casa espírita é lugar de aprendizado, não de personagens. Ninguém ali é forte o tempo todo. Ninguém está imune às próprias provas. E ninguém deveria carregar o peso de achar que precisa dar conta de tudo sozinho.
Quando a pessoa abandona o melindre e assume sua dor, algo muda. A corrente se ajusta. O cuidado flui. A ajuda chega, não porque alguém adivinhou, mas porque alguém teve a coragem de abrir a fresta.
E isso, sim, é maturidade espiritual.

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