#30 – O Peso Que Ninguém Vê

A casa espírita é feita de pessoas, e pessoas carregam mundos inteiros dentro do peito. Às vezes, mundos lindos. Às vezes, abismos.

Podemos observar que, por trás da disciplina, da prece e do trabalho, existem dores que ninguém ousa tocar. Não por falta de coragem, mas por melindre, essa sensibilidade excessiva ao olhar do outro, por medo de parecer fraco, por receio de ser "incômodo", por acreditar que sofrer em silêncio é mais digno.

É assim que nasce a infantilização espiritual, não como rebeldia, mas como proteção. A alma ensina a si mesma que pedir ajuda é arriscado demais, que abrir a ferida pode expor demais, que admitir a dor pode decepcionar quem sempre viu força.

Então ela se esconde.

E, escondida, espera que alguém perceba, que uma entidade espiritual diga seu nome, que o grupo note seus olhos cansados, que o universo dê um sinal óbvio. Afinal, ela mesma não consegue dar o primeiro passo.

Só que esse silêncio pesa. E pesa muito.

Pesa porque quem trabalha também sofre. Pesa porque quem doa também tem noites mal dormidas, conflitos familiares, medos surdos. Pesa porque ninguém fica imune às provas, por mais antigas que sejam as paredes da casa.

Mas o mais doloroso é que esse silêncio cria uma ilusão perigosa: a de que o outro deveria saber, de que a espiritualidade "devia perceber", de que o grupo "devia sentir".

E, se isso não acontece, o melindre abre espaço. A pessoa não diz que precisa, mas se fere porque ninguém ofereceu.

É um sofrimento sutil, íntimo, quase infantil. Mas real, muito real.

Só que existe uma verdade que não machuca, mas liberta: a assistência espiritual chega, sim. Com amor, com cuidado, com respeito. Mas ela precisa de uma fresta.

Ninguém invade. Ninguém força. Ninguém rompe uma porta fechada pelo medo.

Quando se permite que a dor venha à tona, isso não é fraqueza. É a cura começando. É a quebra de um silêncio que pesa demais. É o reconhecimento de que até quem sustenta um grupo carrega suas próprias tempestades.

Nesses momentos, fica claro: a espiritualidade não rejeita dores. Quem rejeita, às vezes, somos nós mesmos.

Abrir-se não diminui. Humaniza.

E quando um trabalhador tem a coragem de admitir que precisa, ele não enfraquece a corrente, ele a fortalece. Porque o bem não nasce da perfeição. Nasce da verdade.


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